Fé não é Axioma!

Chesterton tentou enganar a torcida ao tentar fazer a fé religiosa se passar por "axiomas" (filosóficos ou científicos). A diferença é que o axioma é algo epistemologicamente simples, enquanto a fé (é ampla e epistemologicamente complexa). O complexo tem que ser explicado pelo simples, caso contrário não se estará explicando nada. E é isso que quem coloca a fé (complexa) como premissa (ao invés de axiomas [simples]) faz.

O quão simples algo é epistemologicamente se pode conhecer a partir de quanta explicação/justificação é necessária para ser fazer compreender a sua natureza e existência. Quanto mais conceitos diferentes forem necessários para a explicação, mais complexo e menos simples é a tal coisa.

A Navalha de Occam é um princípio epistemológico que em suma diz que "quando se explicando algo, nenhuma suposição além do necessário deveria ser feita. Ou que a explicação que precisa de menos suposições para explicar algo, dentro do que é possível explicar no momento, é a melhor explicação - epistemologicamente falando."

Só que embora dizer "Foi Deus quem fez, e ele fez assim porque ele quis" seja algo breve e sucinto não é uma explicação, pois não provou que deus existe, nem que ele fez, nem que ele quis - sendo portanto mera SUPOSIÇÃO e não EXPLICAÇÃO.

Ademais, há enorme diferença entre o crer baseado em razões e evidências e a fé religiosa baseada na "confiança na autoridade" do suposto deus, na autoridade da bíblia, na autoridade da igreja, na autoridade do papa/pastor/padre/líder que é um "crer de graça", sem exigir como condição prova alguma. Como bem diz o teólogo católico Hans Urs von Balthasar "a fé é um salto no escuro" diferentemente do crer que o chão está debaixo do meu pé no próximo passo (que não é infalível mas está bem pautado em centenas de milhares de evidências anteriores que não garantem, mas indicam que quando eu pisar no chão ele sustentará o meu corpo ao invés de fazer eu afundar nele).

Tal critério epistemológico foi adotado não só na filosofia quanto também pela ciência tornando-se um dos critérios para a aceitabilidade para poder ser uma hipótese científica, além de ela estar em consonância com o conheciemnto atual, é que ela seja parcimoniosa, ter consistência lógica e ser consistente com suas próprias premissas, ser parcimoniosa, ou seja, explicar o máximo possível sem apelar para outras hipóteses também não provadas criadas apenas para suportar aquela primeira (que são as chamadas "hipóteses ad hoc").

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Refutando as alegações pressuposicionalistas que dizem que ter a fé como pressuposto ou ter um axioma é a mesma coisa:

"Conhecimento é a justificação metodologicamente correta de crenças. Mas o status de método epistêmico correto já pressupõe o conhecimento, pois ele é correto em relação a constituir conhecimento. Como resolver essa circularidade?"

- A solução é entender que nesse caso se trata de um espiral ascendente de círculo virtuoso, onde a cada giro (do círculo virtuoso) o conhecimento se refina, se auto-purga e sobe um nível, ou em abrangência ou em profundidade ou em auto-verificação. A teoria da incompletude de Godel trata disso, a incapacidade de uma auto-justificação de qualquer ciência isolada a partir do zero. O que a teoria da incompletude de Godel faz é mostrar que o conhecimento humano construído de forma fragmentada e que para explicar a realidade um fragmento só não dá conta, é preciso sempre de mais de um - a matemática sozinha não consegue, a lógica sozinha não consegue, a metafísica sozinha não consegue, a história sozinha não consegue e assim por diante.

Ou seja, o conhecimento humano é interdependente - cada fragmento depende de outros fragmentos (mas de conhecimento e não de fantasias mitológicas etc).

A diferença entre o círculo vicioso e o virtuoso é que no vicioso a justificação de uma tese, exemplo, A já implica imediatamente na crença a de B é justificado, porém a B pressupõe a A justificada de antemão e não é portanto justificada racionalmente, o que não ocorre no círculo virtuoso onde cada proposição ou tese é justificada durante o processo de exposição (ainda que no final a conclusão dê suporte a uma premissa que havia sido adotada como axioma).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Petitio_principii

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