Espiritualidade Ateísta

Espiritualidade X Religião, Religião X Misticismo, Misticismo X Espiritualidade

O termo espírito na literatura científica tem um sentido completamente diferente do da literatura religiosa. Na literatura científica ela é no sentido de uma "pessoa espirituosa" ou de "forte espírito" ou seja, nada mais significa que alguém que cultiva o espírito/intelecto/razão/cultura, que tem grandiosa resiliência ou força de vontade ou no máximo alguém sereno que procura viver em sintonia/harmonia/equilíbrio com o próximo e o meio ambiente - coisas para as quais NÃO se precisa de mito, dogma ou religião alguma, basta bom senso - coisas estas que qualquer ateu ou agnóstico pode muito bem ter.

Concebo a espiritualidade como o cultivo do espírito, mas não naquela conotação religiosa de que existiria esse espírito para além do corpo. O espírito é ao meu ver em parte o que se pode chamar de 'psiké'
(
o psicológico - parte mais ligada às emoções - donde a força de vontade, determinação etc
)
e em parte 'noús'
(
faculdades cognitivas, pensamento, intelecto) embora esses dois ajam sinergicamente (se influenciando mutuamente
).

Sem nada de espiritual no sentido de "sobrenatural" de céu ou inferno, anjo, demônio ou "mundo dos espíritos" etc

Nesse sentido sim busco a espiritualidade, mas uma espiritualidade racional e irreligiosa.

Essa é a visão que me parece mais coerente e isenta embora sem o reducionismo de negar a espiritutalidade... assim nós a reinterpretamos, lha resignificamos.

Sabe o que eu diria a alguém que viesse me dizer "você não sabe o que significa religião, religião vem de 'religare' e significa 'se religar a Deus', logo religião é uma coisa boa"? Eu diria: Você confunde a essência de uma coisa com o nome.

Exemplo 1: Se o meu nome fosse "Milionário" e eu morasse numa cidadezinha cheia de pobres, seria um equívoco sair dizendo por ai que eu fosse rico só porque me chamam de Milionário ... pois ao me chamarem assim estariam apenas me chamando pelo meu nome, e não afirmando que eu seja um Milionário
(
que possui milhões de reais
).
Na verdade eu poderia até mesmo ser o mais pobre de toda a cidadezinha e ter este nome, logo, o nome ou o título dado a um determinado ente quando aplicado a outro ente de natureza distinta não faz com que este ente receba a natureza do primeiro. Darei mais exemplos:

Exemplo 2: O fato de nos EUA haver um partido que se autodenomina "republicano" não quer dizer que ele de fato o seja republicano - e qualquer um que entenda um pouco de política sabe que o partido republicano americano de republicano não tem nada.

Exemplo 3: O fato de a igreja apostólica de Roma se autodenominar "Católica" não quer dizer que ela seria de fato (caso todos os mitos cristãos fossem verdade etc etc etc).

A mesma coisa acontece quando se fala em "religião"
(
e se vai para o sentido etimológico ao invés do filológico [dado pelo uso] e pelo fenomenológico
),
o fato de o título da coisa ser bonitinho na definição dada por alguns, no caso a palavra "religião" não quer dizer que de fato ela seja aquilo "religar-se a Deus".

Primeiro que não há provas de que Deus existe, e se tivesse a fé seria desnecessária, mas como a fé é uma condição para a salvação segundo os crentes, logo Deus seria um sádico se exigisse a fé e ao mesmo tempo, supostamente sabendo de tudo, sabendo inclusive que poderia haver provas de sua existência e sabendo também que havendo provas de sua existência isso deixaria de ser matéria de fé sendo conhecimento, pois se a fé é condição 'sine qua non' para a salvação
(
salvação essa que se refere a salvar-se da fúria dele mesmo
)
então a tal salvação seria algo impossível para todos aqueles a quem esse tal conhecimento chegasse
(
pois se a dita existência de Deus fosse algo provado seria conhecimento e sendo conhecimento não pertenceria mais ao âmbito da fé
[
que é o das coisas que são absurdas, sem provas
]
e como diz a Bíblia e a maioria dos livros religiosos "Sem fé é impossível agradar a Deus", logo quem "soubesse" que ele existisse ao invés de apenas "crer" que ele existisse pela fé, não seria salvo). Além disso não há provas de que Deus exista
(
e se existissem tais provas então ele seria um sádico/mau por exigir das pessoas algo que elas não poderiam ter - visto que seria impossível ter fé em Deus sem ter primeiramente a fé de que Deus existe, pois para poder acreditar que se crê no que ele diz é preciso primeiramente crer que ele exista -, e se ele fosse um sádico/mau então ele não seria o ser perfeito que supostamente Deus deveria ser, logo ele poderia ser qualquer outra coisa, menos Deus
).

Um esboço fenomênico do que de fato vem a ser religião:

Religiões têm comportamentos organizados, incluindo hierarquias clericais, uma definição do que constitui a adesão ou filiação, congregações de leigos, reuniões regulares ou serviços para fins de veneração ou adoração de uma divindade ou para a oração, lugares (naturais ou arquitetônicos) e/ou escrituras sagradas para seus praticantes, além, é claro, de credos religiosos
(
crenças obrigatórias a todos os que pretenderem serem tidos por legítimos adeptos
)
... um credo é uma crença com base unicamente na vontade de acreditar numa dada proposição X, seja ela qual for. Exemplo, fulano gosta tanto da vida ou tem tanto medo da morte que quer muito acreditar que quando ele morrer ele ainda vai poder viver de algum modo... então ele vai e acredita nisso, mas não porque tenha provas de isso seja verdade e sim porque ele gostaria que fosse assim, então é uma crença baseada na vontade de que assim seja e não na crueza da realidade – que nada diz a esse respeito (à qual eu humildemente prefiro).

Já uma espiritualidade do tipo de uma consciência ampla, lapidada que exatamente por ter essas características leva seu possuidor procurar viver em plena harmonia com a natureza e os semelhantes, fruto de um cultivar da interioridade
(
sem porém se confinar numa ascese que lhe faria abrir mão da vida como um todo
),
não se caracteriza como religião pois não envolve comportamentos organizados, incluindo hierarquias clericais, uma definição do que constitui a adesão ou filiação, congregações de leigos, reuniões regulares ou serviços para fins de veneração ou adoração de uma divindade ou para a oração, lugares (naturais ou arquitetônicos) e/ou escrituras sagradas para seus praticantes, além, é claro, de credos religiosos
(
crenças obrigatórias a todos os que pretenderem serem tidos por legítimos adeptos
)
... um credo é uma crença com base unicamente na vontade de acreditar numa dada proposição X, seja ela qual for.

Porque religião está ligada ao misticismo e a espiritualidade, considerada nos termos que aqui propomos, não?

Em primeiro lugar porque a espiritualidade nos termos aqui apresentados é uma construção individual e intransferível embora comunicável. Já o misticismo ou a experiência mística é incomunicável
(
pois não se traduz em palavras, portanto necessita de ser experienciada, ou seja, não é comunicável
)
se dá quase sempre >
(
seja uma oração comunitária numa montanha, seja num templo entoando um hino, etc
)
no calor emocional de uma comunidade de crentes que exaltam suas vozes, geralmente estão de olhos fechados exercitando a imaginação com eventos sobrenaturais, se auto-sugestionando quanto à veracidade dos mesmos ou sendo sugestionado por outros à acreditar no que lhes é dito... ou seja, é sempre por intermédio de um grupo de pessoas... estando ele presente ou não no momento, visto que o condicionamento mental pode surtir efeito em momentos que a pessoa está sozinha ao reprocessar algo que teve sua origem no do 'lócus externo' enquanto a espiritualidade, no sentido que aqui empregamos, é proveniente de uma construção interna do sujeito enquanto ser livre e autônomo em sua forma de pensar e agir - o que não significa falta de ordenamento interno pois liberdade pressupõe responsabilidade e autonomia pressupõe a heteronomia como sendo a força resultante do conjunto de autonomias alheias dos membros de um determinado grupo - seja este grupo qual for. Ou seja, na religião o sujeito é passivo pois ele tem que se conformar com algo já dado que não pode ser questionado etc etc
(
ou então ele questiona muda e cria outra religião que então seguirá esse mesmo padrão
),
já na espiritualidade ele não tem a "vontade de acreditar" ele só acredita em algo quando a razão lhe impõe a necessidade de professar a crença em algo, sendo por isso mesmo uma crença fundamentada, um conhecimento
(
que embora não seja infalível é melhor do que as crendices --> que por sua vez são as crenças não fundamentadas na realidade, no conhecimento, ou como alguns preferem chamar... fé
).

Ou seja, a espiritualidade nos moldes aqui propostos é uma construção do 'locus interno' que se constrói principalmente nos momentos de solitude, reflexão crítica tendo como compromisso unicamente a busca da verdade e a conformidade com a razão sem jamais pressupor possuí-la por completo (como é típico na religião).

Os religiosos não tem o monopólio da espiritualidade, pelo contrário, espiritualidade é o que eles menos tem.



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