Refutação ao argumento ontológico para provar a existência de Deus, de Anselmo

by andrecaregnato

“Anselmo de Cantuária, conhecido também como Anselmo de Aosta por conta de sua cidade natal e Anselmo de Bec por causa da localização de seu mosteiro, foi um monge beneditino, filósofo e prelado da Igreja que foi arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109. Chamado de fundador do escolasticismo, Anselmo exerceu enorme influência sobre a teologia ocidental e é famoso principalmente por ter criado o argumento ontológico para a existência de Deus e a visão da satisfação sobre a teoria da expiação.
Entrou para a Ordem de São Bento na Abadia de Bec aos vinte e sete anos e tornou-se abade em 1079. Tornou-se arcebispo de Cantuária durante o reinado de Guilherme II da Inglaterra. Foi exilado por duas vezes, entre 1097 e 1100 e novamente entre 1105 e 1107 por Henrique I por causa da controvérsia das investiduras, o mais importante conflito entre a Igreja Católica e os estados medievais durante a Idade Média. Anselmo foi proclamado Doutor da Igreja numa bula papal de Clemente XI em 1720. Ele é venerado como santo e comemorado em 21 de abril.” - http://pt.wikipedia.org/wiki/Anselmo_de_Cantu%C3%A1ria
Vamos ao argumento dele em favor da existência dele e em seguida passamos a mostrar porque ele está errado.
Imaginemos um ser com relação ao qual não podemos pensar nada maior. Este ser tem que existir na realidade efetiva
ou corremos o risco de encontrar nesta um ser que ainda não tínhamos pensado e, no entanto, é maior do que aquele que estaremos tendo no pensamento, ou seja, vai ser absolutamente maior, portanto, tem que existir tanto no pensamento quanto fora dele. Nós partimos do princípio que Deus é igual à perfeição (a essência de Deus). Se um ser perfeito não existisse necessariamente ele seria menos perfeito do que uma ameba, a ameba pelo menos existe, e
algo que não existe não pode “ter” nada, muito menos alguma perfeição. – S. Anselmo.
Refutação:
1) Se isso é verdade então Hitler foi um dos melhores homens e mais perfeito até do que o homem ideal do mundo das idéias de Platão. Pois este ideal do mundo das idéias de Platão nem sequer existiu, ou seja os homens que existem ou já existiram mesmo com seus muitos defeitos são melhores do que homens ideais. Logo, a ética é vã, pois a ética visa nos tornar (ao menos idealmente1) homens ideais, por meio de condutas ideais. E se tudo que existe, pelo simples fato de existir já é mais perfeito do que aquilo que (poderia existir mas não existe ou poderia ser mas não é ou ainda daquilo que) possui outras inúmeras perfeições mas não possui a existência, então um assassino existente seria mais perfeito que um santo que só não possui uma das inúmeras perfeições, a da existência.
2) Parece que para que se pudesse sustentar aquele argumento de Anselmo frente à crítica de que:
“Se fosse comprovado de fato que ele (esse maior ser que pudesse ser pensado) não tivesse a “existência real”
(o que de certo modo é como se fosse pressuposto ou o ponto de partida de todos exceto os que creem, não exatamente porque tenha sido provado que ele não existe, mas por falta do comprovação da alegação inicial de sua existência pelos que alegam que ele exista)
ele continuaria sendo o maior ser que pode ser concebido no pensamento (em termos de completude e perfeição – nível ontológico), uma vez que teria todas as perfeições menos uma2, e nenhum ser pensado seria tão grande em completude e perfeição como ele, pois qualquer outro ser teria falta de mais perfeições do que a que ele tem”
Aí é que quem defende o argumento anselmiano replica que:
“Até mesmo o menor ente que exista na realidade (ontologicamente falando) seria maior do que esse ser X que não teria uma existência real (ou seja, em ato; mas sim em potência – se é que se pode dizer assim), pois esse ser X não existe, e se não existe ele não é nada. Portanto, tudo e qualquer coisa que exista realmente é maior do que ele”.
Quanto a isto eu objetaria:
Mas, no pensamento, ele (X) continuaria sendo o maior ser (concebível), porém não o seria na realidade, pois na realidade ele não existiria. E como o que Anselmo quer é “aquilo a respeito do qual nada de maior pode ser pensadoe nãoaquilo a respeito do qual nada de maior exista na realidade”, então, é razoável compreender que algum teórico religioso possa dar, (através de uma artimanha provinda da engenhosidade intelectual do ser humano somado ao ardente desejo de ter o prazer religioso de poder dizer que ‘provou que Deus existe’) num ato de mera intelectualidade ou elocubração teolosófica, seja dado o atributo “existência” a esse ser (X) (sem contudo que ele exista de fato, ou sem contudo, que por causa disso, ele exista de fato) e embora a tal “prova” só possa ser acreditada por aqueles que já acreditam na existência do ser (X) pelos motivos que acabamos de dizer. É perfeitamente compreensível que um religioso force a barra dessa maneira para tentar fazer sua fé parecer algo racional, mas isso passa longe de nos parecer um argumento válido ou até mesmo plausível. Mas reconheço que isso deve ser de grande valia para aumentar a fé dos crentes em pregações nas igrejas.
Sem querer pegar pesado, mas falando agora de modo sucinto, a única coisa que o referido argumento de Anselmo prova é que, se Deus existir de fato, ele só nos parece poder ser o maior ser que podemos pensar.
Mas isso é bem diferente de achar que porque pensamos num ser (entidade, ente ou coisa) com todas as perfeições possíveis ele/a deva existir só por fomos capazes de pensá-lo/a. Do contrário deveria existir também o automóvel que tem todas as perfeições possíveis, que seria o maior ser dentro da categoria dos auto-móveis (que portanto, por ter todas as perfeições possíveis, possui um sistema inteligente embutido que também possui todas as perfeições possíveis, um sistema de segurança com as mesmas características etc, teria que ter o atributo da visibilidade, da perfeita usabilidade por nós, enfim, seria um deus em forma de automóvel …) e o tal carro com todas as perfeições possíveis existiria só porque fomos capazes de pensá-lo … E não adianta dizer que Deus é maior que um automóvel, pois seria maior do que um automóvel qualquer, mas não este, pois tendo ele todas as perfeições possíveis de inteligência máxima, proteção absoluta etc etc para que ele fosse o que é no conceito (um auto-móvel com todas as perfeições) teria que ser o próprio Deus em forma de auto-móvel com todas as características do auto-móvel com todas as perfeições para o ser humano.
Mas então cadê o tal carro? Nenhum teísta conseguiria mostrá-lo a nós.
Quem realmente argumentasse com um argumento desses tentando provar verdadeiramente que o tal automóvel existe, ao meu ver, estaria fazendo talvez a mais perfeita e exemplar manifestação de uma determinada corrente de pensamento em forma de argumento, a saber a do idealismo metafísico – exatamente da mesma forma que ao meu ver fez Anselmo.
Estou eu dizendo com isso que Deus não existe? Não, pois eu não tenho provas de que ele não existe. Eu só tentei mostrar que esse argumento de Anselmo é imperfeito enquanto tenta provar que Deus existe só porque podemos concebê-lo em nossas cabeças ou que o fato de podermos conceber a idéia de Deus em nossas mentes seja prova de que Deus exista, pois as coisas não existem só porque pensamos que elas existem e nem só porque podemos concebê-las em nossas mentes (como tento todas as perfeições).
————————
1 Digo “ao menos idealmente” pois bem se sabe que de fato ninguém ainda que queira consegue seguir com perfeição sempre e o tempo todo sem nenhum deslize um código de ética (o que não deve ser estímulo para o desleixo é claro).
2 A existência; pois, segundo Anselmo, o ser é conversível ao bem, portanto existir é uma perfeição.
_______________________________________________


Página Inicial