Argumento de Contingência de Leibniz


Em resposta ao vídeo do Alexandre Porto sobre o argumento de contingência de Leibniz eu diria que:

Em primeiro lugar ele já cai na falácia de dizer "tudo que existe tem uma explicação para sua existência, seja na necessidade daquilo existir ou em uma explicação externa", que comete o mesmo erro de quem diz que "já que todos os cabritos que já vieram ao mundo tiveram uma mãe, logo, existira, então, uma cabrita que seria a mãe de todos os cabritos que já existiram".

Sobre uma série infinita de causas contingentes ou uma única causa necessária, ambas são igualmente absurdas. A primeira porque, na verdade, nunca tem uma causa primeira do universo. E a segunda porque o adjetivo de "necessário" ao tal ser que seria a causa é um adjetivo que é colocado 'ad hoc' pra justificar uma explicação, de tal forma que ao invés de ele ser causa de tudo, na verdade ele é apenas consequência da explicação que necessitou de inventar (tal como na antiguidade) um ser mágico pra tentar explicar algo que desconhecemos o real funcionamento. Mas que não explica a origem deste ser mágico e misterioso de tal forma que é na verdade apenas a transferência do problema para uma outra entidade, tal como se eu dissesse que quem criou o ser necessário foi um outro ser ainda mais necessário que existe em uma outra dimensão de maior nível de realidade na qual só o ser super necessário existia, embora o ser necessário existisse desde sempre em uma outra dimensão menos real passou a existir também naquela dimensão mais real apenas graças ao super ser necessário, e que desta forma passariam existir as coisas, poderiam ser necessárias numa dimensão com um nível de realidade enquanto seriam contingentes em outra dimensão com outro nível de realidade - note que ao invés de isso explicar algo, apenas transfere o problema para outra entidade - que também nunca foi provada como existente, e que cujo argumento para o qual ela mesma foi inventada para ser posta 'ad hoc' evidentemente não pode ser considerada como sendo prova desse ser por qualquer que tenha um pingo de lógica na cabeça. E que se poderia fazer isso (criar sempre novo ser que supostamente seria a explicação para o restante e transferir o problema para a justificação dele 'ad infinitum', mas isso jamais iria explicar alguma coisa - para desgosto dos teístas, que pretendem que esse seria um modelo de explicação válida.

A contingência de Leibniz sintetizada por F.C. Copleston: "(...) o mundo é simplesmente a totalidade, real ou imaginária, de objetos individuais, nenhum dos quais contém apenas em si a razão de sua existência. Não existe qualquer mundo distinto dos objetos que o formam, da mesma maneira que a raça humana não é algo separado de seus integrantes. Portanto, como objetos e acontecimentos existem, e como nenhum objeto da experiência encerra em si mesmo as razões de sua existência, essa existência, a totalidade de objetos, deve ter uma razão externa a si mesma. Essa razão tem de ser um ser existente. Ou esse ser é ele mesmo a razão de sua existência ou não é. Se o for, muito bem. Se não, é necessário avançar. Mas, se avançarmos até o infinito nesse sentido, então não existe absolutamente nenhuma explicação para a existência. Assim, para que expliquemos a existência, precisamos chegar a um ser que contenha em si mesmo a razão de sua própria existência, isto é, que não possa não existir. (...) A série de eventos ou é causada ou não é. Se é causada, obviamente deve haver uma causa externa à série. Se não é causada, então é suficiente a si mesma, e, se é suficiente a si mesma, é necessária. Mas ela não pode ser necessária, já que cada integrante é contingente, e concordamos que o total não constitui realidade isolada de seus integrantes; portanto, não pode ser necessária. Assim, não pode ser 'causada' - não causada - e, portanto, deve ter uma causa".

"Assim, para que expliquemos a existência, precisamos chegar a um ser que contenha em si mesmo a razão de sua própria existência"

- Esse "Assim, para que expliquemos a existência" ai não é uma necessidade lógica, mas sim psicológica, um puro desiderato. Caberia a seguinte pergunta quanto a isso: Existe algum ser que contenha em si mesmo a razão de sua própria existência? O que se quer dizer com "conter em si a razão de sua própria existência?" Isso parece dizer que uma razão poderia ser a causa de algo existir - o que contraria o que se pode perceber no mundo, onde só causas causam. Vamos direto ao ponto, por "ser que contém em si a causa de sua existência" ele quer dizer um "ser que causa a si mesmo", porém essa é uma noção absurda se for levada em conta tal como entendia Parmênides, como sendo algo que se opõe à metamorfose constante proposta por Heráclito. Claro, os seres individuais são parmenidianos, mas aquilo que se pode chamar de totalidade dos seres e do real é algo heraclitiano - cuja permanência é apenas a da existência, porém de suas formas internas em constante mutação e reconfiguração. Nossa tese é que de que o universo (ou, se preferir, o multiverso) não é um "um ser", mas sim um conjunto com a totalidade de seres. De forma que essa existência, da totalidade de objetos, não necessita ter uma causa externa a si mesma. Já o mesmo não se poderia dizer de Deus, visto que Deus tem uma essência, e ela não muda, nem poderia mudar. Não podendo ser portanto uma mera "totalidade das coisas" que segue um fluxo ininterrupto de mudanças e totalidade essa onde coisas velhas saem de cena dando lugar a novas incessantemente. Então defendemos a eternidade do universo mas não dele como um "ser", mas sim como uma classe do conjunto de tudos os entes que compõe a realidade. Então o que não existe é uma série causal para o universo (ou multiverso) como um todo, até porque ele não é um ser, é só uma classe de coisas - o que existe é um fluxo de coisas e eventos dentro desse conjunto.







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