Antropomorfismo

Definição dicionarista do termo Antropomorfismo: "(do gr. anthropos: homem, e morphé: forma)
1. Concepção pela qual explicamos os fenômenos físicos ou biológicos atribuindo-lhes motivações ou sentimentos humanos. 2. Atitude de espírito que consiste em conceber Deus à imagem e semelhança do homem e em atribuir-lhe modos de pensar, de sentir e de agir idênticos ou semelhantes aos modos humanos.
3. A similitude entre Deus e o homem aparece, tanto para Feuerbach quanto para Freud, como a fonte mesma da religião. Para Feuerbach, Deus é a essência da humanidade: o homem projeta num ser mítico todas as suas qualidades e adora, assim, sua própria essência, que ele não mais reconhece. Para Freud, Deus é o Pai morto: na horda primitiva, o grupo dos filhos, oprimido pelo pai que o exclui do poder e o afasta das mulheres, rebela-se e mata o pai; porém, para evitar a discórdia entre si e fugir da culpabilidade, restabelece a lei e os interditos que o pai havia instaurado; é desse conflito que surgem o poder divino e a neurose originária da religião." - Dicionário de Filosofia - Hilton Japiassu

ANTROPOMORFIZAÇÃO DA NATUREZA, COSMOS, UNIVERSO, MULTIVERSO, MATÉRIA INANIMADA OU DE EVENTOS CONTINGENTES E NÃO ORIUNDOS DA INTENCIONALIDADE/PROPÓSITO/FINALIDADE DE SERES VIVOS QUE TENHAM ESSA CAPACIDADE [SEJAM ELES BIOLÓGICOS OU TECNOLÓGICO])

Exemplo: A o dito popular "Nada acontece por acaso" (como se tudo, cada um dos fenômenos que vieram a ocorrer no universo, por menores que sejam, tal como um grão de poeira voar após a passam de um carro, tivessem um propósito/intenção/finalidade para sua ocorrência. Para demonstrar o erro desse pensamento em primeiro lugar é necessário esclarecer a diferença entre "propósito/intenção/finalidade" e "causalidade física". Na verdade eventos tais como o citado no exemplo não tem um propósito/intenção/finalidade mas apenas uma causa física regida por leis físicas, que porém são desprovidas de intencionalidade/finalidade ou propósito (coisas estas próprias do mundo humano - e que não se pode atribuir à natureza). Toda tentativa de atribuir a tais fenêmenos um propósito/intenção/finalidade deriva de um erro de raciocínio que toma o mundo humano (o mundo da cultura) como parâmetro para avaliar o mundo não humano (o mundo da natureza). Um exemplo prático bem caricato seria dizer que "uma pedra pensa porque nós humanos pensamos". Uma alegação completamente infundada e evidentemente errada. Porém quando dizemos "se todos nós humanos temos uma origem então o universo também tem" soa algo mais intelectual e verídico, porém dá na mesma de dizer que "a pedra pensa porque nós pensamos". O erro é confundir o contingente com o necessário. Tal como quem diz "tu não nasceu filho da tua mãe por acaso" (como se houvesse um propósito/intenção/consciência/finalidade que tivesse feito com que você, especificamente, viesse a ser filho da mãe que tu teve, especificamente - ou seja, se está atribuindo a coisas desprovidas de propósito/intenção/consciência/finalidade e contingentes um propósito/intenção/consciência/finalidade e uma necessidade ontológica de cunho teleológico ou finalista, sem nenhuma evidência ou prova para suportar tal alegação). Não é porque havia uma vontade que tinha predeterminado que você, especificamente, seria filho daquela pessoa que veio a ser a tua mãe, especificamente, que essa que veio a ser tua mãe especificamente foi mãe de você especificamente, mas sim, ao invés disso, porque ela é tua mãe e tu é filho dela, e por ela ser uma pessoa específica que teve um filho, e um filho não tem como ser difuso mas somente um filho específico (isto é, limites físicos bem definidos e com características físicas identificáveis e que servem para distinguí-lo dos demais), é isso que o tornou um filho específico de uma determinada mãe específica e não uma conspiração cósmica que anteciparia quem as pessoas seriam e de quem elas seriam filhas antes mesmo de elas existirem.

Obs 1. Apesar de a intencionalidade/propósito/finalidade não serem atributos exclusivos dos seres humanos, mesmo assim, atribuir tais coisas à matéria inanimada ou a eventos contigentes como se fossem inexoráveis por partirem de uma vontade suprema (como por exemplo o fato de o bebê X nascer da mãe Y) não deixa de ser um antropomorfismo pois o homem ao fazer tal atribuição de valor o faz não baseado no fato de que um cachorro ou uma lagartixa faz algo com intencionalidade, mas sim no fato de que ele coloca sua própria experiência (humana) da intencionalidade/propósito/finalidade como referência, ou seja, no fundo é uma auto-referciamento especista (ou um auto-referenciamento que o homem faz a si mesmo enquanto espécie, mas levando em conta sua própria experiência da intencionalidade/propósito/finalidade e também a percepção que ele tem tanto da intencionalidade/propósito/finalidade dos seus colegas de espécie quanto da intencionalidade/propósito/finalidade de seres de outras espécies de seres vivos [sejam biológicos ou tecnológicos] que possuam tais atributos), por isso não deixa de ser um antropomorfismo, pois o foco é no auto-referenciamento, ou seja, no antropocentrismo. E portanto atribuir ao cosmos ou à natureza inanimada ou a eventos contingentes uma necessidade baseada numa vontade que tem como base apenas uma analogia com coisas causadas devido a atributos humanos como a intencionalidade/propósito/finalidade é no fundo criar uma imagem de mundo antropomórfica uma vez que se tem uma ideia do homem como a medida para todas as coisas, como o centro de tudo (antropocentrismo) e depois ainda se usa esse ponto de vista para atribuir ao mundo atributo que pertencem ao homem (não por serem únicos nele - mas por ele ser considerado "a medida das coisas", o centro, o padrão ao qual todas as coisas devem ser referenciadas, diferentemente dos outros seres vivos que possuam tais atributos [sejam biológicos ou tecnológicos]).

Obs 2. É claro que em seres vivos, dentro do corpo destes que tenham essa capacidade e nas ações destes a intencionalidade/propósito/finalidade sempre está presente pois é fruto de vários aperfeiçoamentos que aconteceram pela tentativa e erro durante muito tempo em cada espécie, restando portanto só as que foram aperfeiçoadas e naturalmente selecionadas por melhor adaptação ao meio em que vivem.

ANTROPOMORFIZAÇÃO DE DEUS

A antropomorfização de Deus ocorre quando as pessoas por um motivo ou por outro (seja pelo encantamento da criação narrativa, da tentativa de encontrar explicações que servissem a si e aos demais para aliviar sua penosa curiosidade incessante a cerca das origens pondo nela um ponto final, seja para manipular as mentes crédulas) criam deuses que possuem alguns atributos humanos no superlativo, sendo portanto uma espécie de homem melhorado com alguns super poderes.


Página Inicial